sábado, 12 de dezembro de 2009

Artigo - Perfume musical


Estava eu andando de metrô um dia desses e algo que está se tornando muito comum nos dias de hoje me chamou a atenção: um rapaz, com seus 20 e poucos anos, levava seu celular nas mãos e deixava fluir dele suas músicas preferidas. Eram músicas românticas, italianas, eu não soube reconhecer a cantora, poderia ser algum disco novo de Laura Pausini, ou alguma cantora nova do mesmo estilo. O interessante nessa cena é a forma como a música envolvia o espaço que o rapaz ocupava no vagão do metrô, escapando um pouco para os ouvidos dos mais próximos, chegando a incomodar os mais concentrados em seus livros ou entretendo aqueles que só queriam que o trajeto passasse rápido e não haviam levado distração.


Quando o metrô chegou na estação de destino do rapaz e ele levantou-se para sair, o perfume musical que seu celular exalava foi deixando um rastro, que o acompanhava e ao mesmo incomodava, e nesse momento percebi o quanto essa tecnologia vem mudando de função: o aparelho deixou de ser acessório de comunicação e passou a ser um cosmético. Um fetiche, como preferem os acadêmicos. Cada vez mais, adolescentes, homens e mulheres utilizam o celular para satisfazer a própria vaidade, chamar a atenção dos demais, tornando públicas suas características de personalidade e expondo seus gostos e suas opiniões.

Quem primeiro percebeu isso foram os indianos. Lá, as empresas de telefonia celular logo viram que o hobby de seus clientes adolescentes era justamente reunir os amigos para ouvir músicas no celular, e os aparelhos que permitiam isso, que tinham caixas acústicas integradas mais potentes, eram os mais vendidos, o que fez as grandes fabricantes cria rem modelos baratos com recursos multimídia interessantes para essas classes.

Assim como sair exageradamente perfumado é péssimo, ouvir música em volume exagerado em locais públicos também é. Afinal, gosto é muito pessoal. Para alguns, pode ser bem melhor sentir o aroma de um "perfume Elis Regina" do que o de uma "colônia Dança da Motinha" por exemplo, ou vice-e-versa.

Estrategicamente, ando pensando em tomar posição. Se a nova onda começar a "cheirar" muito mal para meus "ouvidos", vou eu também tomar um banho de MPB, Rock, Pop, e todas os estilos que me agradam, e defender meu espaço nos metrôs, ônibus, e qualquer outro lugar onde corra o risco de sentir um só odor que me incomode. Afinal eu também tenho o meu perfume musical.

Michel Soares

Nenhum comentário:

Postar um comentário